Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Saga suína

Se você pensa que tudo o que se come com fome tem um sabor delicioso, temos a certeza de que você nunca experimentou essa iguaria campestre: bolinho de chuva frio sabor calabresa defumada!

Imagine a combinação do gostinho de piraquê de presunto com geladeira fedida e açúcar e canela... É - realmente - inesquecível...

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Ouvem-se os suínos de Natal

Prólogo

Os gritos dos suínos no matadouro embalaram meus sonhos infantis. Quais as consequências psicológicas que esses sons, nada harmônicos nem melódicos, causaram em minha mente? Pena, dor, sentimento de vingança contra a raça humana? Nada disso e tudo isso: muitos questionamentos sobre o que representa no imaginário coletivo a palavra porco e qual o papel de seu representante físico no mundo real.
Porco, pra quê te quero?

Porcofobia?

Boca de porco é como chamam um lugar bagunçado, que não preza pela qualidade, mal gerenciado. Cabeça de porco é como chamam um cortiço, um lugar cheio de gente e, por isso também, um pouco bagunçado. Porco é como chamam o torcedor do Palmeiras, mas também é como nos referimos aos indivíduos de conduta duvidosa, indivíduos bagunçados moralmente... [sem analogias, por favor!] E os judeus e adventistas e mais um monte de religiosos não comem carne de porco, pois os bichinhos foram malditos na Bíblia como representantes do tinhoso na Terra! E agora tem a gripe porcina, tão pegajosa quanto a viúva! Será que é a praga do Apocalipse já prevista na década de 80? Em 2012 quem não comer porco será arrebatado? Deuses!

Hócus-pócus, pobres porcos!

Dizem que os porcos são tão inteligentes quanto os cachorros. Nunca pude comprovar, pois os que conheci viraram comida assim que cresceram um pouco. Sei que criam porcos em casa sem fins alimentícios [ainda não conheci nenhum criador desse tipo], mas porcos-toy não são assim populares com a garotada que foi doutrinada a gostar dos cães, gatos e peixes. O único destaque positivo dos suínos na mídia foi o porquinho falante Babe, de quem não temos notícias há anos, pois cresceu muito e deve ter virado presunto ou viciado em ervas, como os atores mirins.

Temos de admitir que porcos são figuras malquistas até em desenhos animados: ou são gagos, ou são detestados por lobos, ou são maldosos e querem aprontar alguma pra cima dos carneiros [Shaun que o diga!].

Então, foquemos nas coisas boas que os porquinhos nos trazem: nhóinc! é uma onomatopeia fofa; tem também focinho que sobe-e-desce e fica suando e solta ar quente com perdigotos e remete ao cheiro do chiqueiro, éca!

Epílogo

Puxa, acho que só a alquimia culinária [para quem não tem uma religião com dieta restritiva e não acredita que isso vai impedir o arrebatamento em 2012] é que pode nos lembrar dos prós de um porcino: o carinho do pernil de Natal, o aroma do chucrute, a cor peculiar da água da salsicha, o paladar inenarrável do lombo com abacaxi, o brilho da bistequinha, a tonalidade rosa-roxo do presunto... e aaah, os assustadores mas gostosos porco no rolete e porco assado com a maçã na boca!
Porco, como te quero!

Fácil, fácil!

Como todo restaurante que dá um "tíque" e, se você juntar dez deles, ganha uma refeição completa; ou então como o café que, se você colecionar cinco carimbos, o próximo é na faixa, o botequim da esquina tem promoção exclusiva para beberrões de Tubaína [a rainha do espumante tutti-frutti] e glutões de P.F. [a refeição mais balanceada à brasileira]: pague R$ 6,99, tome um cafezinho adoçado na saída, chupe uma bala de menta e guarde o troco – depois de 700 refeições você ganha uma de grátis!

Terça-feira, Novembro 10, 2009

"Tempo-tempo mano velho..."

Ontem não consegui dormir até acabar o programa Invenção do contemporâneo na TV Cultura [o que atrapalhou meu trabalho hoje, já que as emissões realmente importantes passam depois da meia-noite...].

Há tempos ouço falar da Olgária Matos, ouvia muito falar dela nos corredores da Filosofia, mas não sabia qual sua aparência nem voz. A imagem que eu tinha criado era a de uma pessoa de uns 70 e trá-las-las anos, cabelos brancos presos em coque e com uma personalidade um tanto quanto dura.

A personalidade deve ser muito forte, mas ela é jovem, simpática, fala sobre a contemporaneidade como poucos que já ouvi, com muita desenvoltura, e o tema que ela abordou me interessava muito: o tempo sem experiência.

Para quem quiser, reserve um tempo [+ ou - 40 minutos] para experienciar que suas angústias com a passagem do tempo, cada vez mais rápida e com esse sentimento de vazio, vêm num crescendo desde 1855! Aí vai o link, aproveitem!

Sábado, Agosto 22, 2009

ando num cansaço,

barulho
cidade
cabeça
pessoas

parece que é febre,

boca
som
palavras
sentido algum

parece que é falta,

mão
coração
delicadeza
silêncio

acho que é isso,

dizer que não.

Deu zebra?

Tão inesperado quanto resultado de loteria, tão incomum quanto um motorista parar o carro antes de suas listras, tão esperada vitória de time que nunca ganha, você já viu o sorriso da zebra?


É de levantar as orelhas, massagear o gogó, preparar o biquinho e fazer todo mundo sorrir!

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Na verdade,

Cada época tem o vício de linguagem que merece e “Na verdade,” é o da vez. Daqui a alguns anos, algum lexicógrafo vai achar fundamental incluir a locução no verbete “verdade” e a etimologia será a seguinte:

[var. do lat. in+a+ veritas, adaptada ao séc. XXI: muito usada nos ambientes de trabalho, chamados de empresas, a expressão “Na verdade,” vem seguida da mesma frase que a pessoa acabou de dizer, só que explicada de uma maneira ou mais rebuscada (para encobrir a mentira) ou mais didática (para o enunciador se sentir intelectualmente superior). A expressão vem sempre seguida de vírgula, pois a pausa é necessária para dar autenticidade a ela.]

Sábado, Maio 16, 2009

Vale a pena


Pessoal, o livro que o Carlos [querido] escreveu baseado em um disco do Luiz Gonzaga foi publicado pela Mojo. Para ler e se divertir, basta clicar na foto, se cadastrar no site e fazer o download. Acho legal que, depois ou antes da leitura, vocês ouçam o disco! E quem ficar com vontade de dançar um forró, não se segure! :o) Beijos!

Domingo, Abril 19, 2009

Os bichos - II

A cadela Nina

Nina olha a câmera e arrebita o focinho. Seus olhos curiosos tentam descobrir quem é a figura faceira refletida na lente. Em segundos, ela ergue a sobrancelha e, num auto-reconhecimento instantâneo, sorri largo. Sua imagem é capturada. Fica, então, registrado, que Nina faz parte da estirpe dos cães puramente felizes. Na velocidade de um flash, Nina faz com que vejamos [através de seus olhos despretensiosos] as portas do mundo que devem ser abertas.

Os cachorros Sagu e Magoo

Filhotes de mesma mãe - Pagu - Sagu e Magoo não se largam. Tentaram separá-los, mas eles nasceram grudados! O que seria dos olhos de Magoo, todos esbugalhados, se não fosse o afetuoso irmão-guia Sagu? O que seria de Sagu, cachorro-carente [quase um cachorro-quente], se não fosse a fraternidade [sem interesses] de Magoo?

O gato Mané

Dando uma de Mané, foi se aboletando na grama da vizinha. Dia sim, noite sim, Mané miava à luz do sol, da lua e olhava fixo pras estrelas. Dias depois, Mané conseguiu dormir dentro do novo lar e ganhou cinco irmãos gatos e um irmão cachorro - "Que alegria!". No entanto, ninguém sabia que Mané, em suas noites ao relento, tinha ganhado uma mania... Olhava as estrelas fixamente e pedia, com fé sincera, para ganhar uma família. Como seu pedido foi atendido e não queria perder seus novos companheiros mais queridos, sismou que cada habitante da casa era uma estrela e que ele os olharia fixamente sempre, para nunca perder o céu de vista. Mas pobre Mané! Guardou seu segredo a sete chaves e foi incompreendido pela sua fraternidade. "É um esquisito, seu olhar fixo é uma anomalia, uma afronta!" - dizem seus irmãos. Mas mesmo assim, maltratado e rejeitado, ele ama esse céu que compôs pertinho dele e os fixa em sua mira. [hoje, Mané - o vencedor do concurso felino de quem pisca primeiro - apanha de seus irmãos semana sim, semana sim. ele reage deitando de costas, levantando suas patinhas e pedindo às estrelas que fiquem um pouco mais alegrinhas...]

O cachorro Tutti

Tutti de tutti-frutti não tem nada. Nem de fruta alguma, nem de tutti buona gente, ele é especialista em tocar o terror na multidão. Em seus 50 cm de comprimento, 30 cm de altura e poucos quilos de puro pelo, Tutti, para piorar, é bipolar. Uma hora ele te ama, pede colo, bate patinhas. Na outra, te abocanha com sua arcada dentária pequena, mas afiada. Ele é o Scoobiloo dos poodles, o Taz do Brasil. Furacão 2000 que o aguarde, pois MC Tutti Besta-Fera é militante e vai dar um fim a essa onda de chamar humanos de cachorras - o que ele considera um desfavorecimento à sua classe. É bom estar preparado!

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Esfinge

Em fita enfileiram-se.
Em linha encontram a agulha e espetam.
Em corda reverberam do diafragma à face.
Em fio chegam sem pedir licença.
Em teia penetram o sombrio, o luminoso, o tenebroso, o maravilhoso.

Domingo, Março 15, 2009

O último filme que me fez chorar foi O Escafandro e a Borboleta. E a dor no estômago que me deu hoje fez eu me lembrar dele. Todos esses filmes de superação mexem comigo. Qualquer história do tipo “Gente que faz” me motiva a ser cada vez melhor, mais engajada, mais ativa, mais corajosa, mais qualquer coisa que seja tudo de melhor.

Quando era pequena assisti pelo menos umas 20 vezes ao filme da Nadia Comaneci, chorei todas elas e decidi que queria ser alguém importante, reconhecida pela superação dos obstáculos. Na escola praticava a ginástica olímpica; em casa, eu e minha prima fazíamos apresentações no colchão no chão, com paradas de mão, pontes, cambalhotas, o maior sucesso pra gente. Até o dia em que, depois de uma parada de mão, quase quebrei o pé. E desisti.

Com O Escafandro e a Borboleta, já pensei diferente. Putz, o cara pisca pra escrever um livro e eu, que posso piscar, falar, escrever e rebolar, fico mais parada que o trânsito em São Paulo, esperando uma pomba suicida bater no vidro do carro pra ter um lampejo de brilhantismo e escrever.

Daí, os botões ativaram: que engajamento é esse, tão efêmero quanto a duração do filme ou, pior, da vinheta? Essa minha meia-educação-católica / meia-educação-masoquista fez com que eu achasse por muito tempo na minha vida que o sofrimento é o que move, a falta de amor é o que faz ter assunto, a falta, o sofrer, a dor... [a dor de estômago resultante de um pacote de Calipso, shame on me! Hehehehe!]. Balela! [não baleia, :o)!] Mentira que é bom sofrer de amor. Mentira que pra ser criativo alguém precisa de drogas e um pé na bunda. O mundo está cheio de histórias tristes, pessoas reclamando de tudo e oportunidades escapando.

Bom mesmo, legal a valer, é ser simples e feliz. Mas não feliz-propaganda-de-margarina-absorvente-higiênico-serenus. Ou então feliz-mulheres-das-novelas-apaixonadas. Mas sim feliz-amar-e-ser-amada-sorrir-despreocupada-saber-que-pode-confiar-e-que-pra-sempre-é-hoje-todos-os-dias-agora. Com a família, com o amor-querido, com as amigas, com quem acabo de conhecer, até com a carcereira do refeitório do trabalho.

Talvez eu não deva escrever nem mesmo tentar ser ginasta [o que seria improvável na minha balzaqueanice e na minha forma física, rs], mas todos os dias meu engajamento está dentro do que é possível: me dedico a ser uma pessoa melhor, falho, me dedico novamente, falho, e vou pra onda do querer me desafiar nas esquisitices. [Agora, por exemplo, era para eu estar trabalhando num livro legal-porém-difícil; mas ouvir a voz do amor-querido me fez lembrar do blog e me fez querer escrever sobre o que encontrei, porque decidi, não por sorte...]

***

Faz um tempo que descobri que é fator-isolante ser feliz nesse mundo de gente que busca a felicidade e prefere ser triste. Até as pessoas a quem amamos acham difícil acreditar que alguém possa ser feliz! Se googlarmos, acharemos 5.400.000 para livros sobre felicidade. Será que a felicidade – a simples, que faz você sorrir quando vê passarinhos verdes num céu cinza – foi experimentada em todas essas milhões de páginas?

Domingo, Março 08, 2009

Persistência

Para os persistentes que ainda passam por aqui com a esperança de ler algo novo, que não fossem desculpas por não escrever nada há tempos, muito obrigada! O blogue está só com xícaras usadas e café de garrafa térmica, mas voltarei em breve. Talvez com outro blogue, talvez com o mesmo de cara nova...
Vi que existem novidades blogueiras que desconhecia, como os "seguidores", e já agradeço minha prima Cris por ser uma seguidora querida! :o)
Beijos a todos e persistam, pois renascerei da borra loguinho-loguinho! Ah! E um Ano-Novo muito lindo, com muita luz, um pouco menos de calor e um viva para quem inventou o ventilador!

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

II

Minha família é o resumo do mundo perto de mim.
Tem pra todos os gostos, humores, amores, ideiais, vocações, ilustrações.
Em todo o mundo prega-se a tolerância entre as diferenças.
No minimundo, precisa-se pregar um post-it lembrando que a tolerância é a melhor amiga da paciência e, só assim, alcança-se a paz mini-universal [a paz de espírito].
Esse mundo, o familiar, tem me mostrado que o silêncio é mesmo de ouro.
Que a política é o dia-a-dia. Ser direto nem sempre é bom. Gostos não são discutidos. Nem crenças, nem futebol e nem o porquê de ter votado em quem não tinha chance.
Mas chega uma hora que o resumo do mundo vira contação de histórias, passado passado a limpo, conversas ao redor do bule, todos sentados esparramados pela mesa depois do almoço. Nesse momento tudo é festa de encontro, história para dividir.
Minha família não é perfeita, como ninguém no mundo é.
Tem altos e baixos como a bolsa de valores, porém, dentro dela, o amor nunca é especulação.

Terça-feira, Outubro 07, 2008

I

Nos serviços burocráticos dos carimbos, das assinaturas, dos prazos a cumprir, na solução de como se deve vender o peixe nascido às margens do Tietê, semi-morto, a palavra perdeu o sentido e se afogou no tempo. Eu me perdi dela por todo o outono e começo da primavera. Vi os ipês em flor, as flores caírem, as pitangueiras florescerem e até comi as pitangas. Já não sabia mais o que seria: se eu juntasse letras, como a reconheceria? De repente, ela chegou logo para ser dita, aos berros, em dupla, combinando imagem e idéia: alma-calma.

Domingo, Julho 27, 2008

De repente, Orelha descobriu porque nada ornava. Há 25 anos apaixonava-se por cérebros.

[Orelha] - Ouvido, nossa, escute! Descobri o que acontece comigo. Parte dos meus neurônios migram para órgãos como fígado e estômago; parte faz um bloqueio da ligação visão-raciocínio-lógico. É daí que vem minha estranha paixão por cérebros!

Ouvido queria ouvir outra conclusão. Provocou-a.

[Ouvido] - Orelha, você está muito intelectualizada. Vamos analisar a procedência dessa cegueira e burrice súbita, depois você tira conclusões melhores.
[Orelha] - Intelectualizada o escambal! Faz 25 anos que me analiso e agora cheguei a uma associação plausível! Ei, por favor! Ouça direito, depois venha me analisar!

Orelha tira um bastão cotonete de seu bolso e o entrega ao Ouvido. Este o utiliza com prazer inenarrável, olhando para cima. Orelha se espanta: nunca tinha visto Ouvido com os olhos brilhantes e tão comovido! Aproveitou a brecha e lançou:

[Orelha] - Ouvido, preciso te perguntar uma coisa: você tem cérebro?
[Ouvido] - Cérebro? Ahn-han, claro! Somos da mesma espécie ou não?

Ouvido, ao ouvir a pergunta, respondeu-a esperançoso. Pensou, "Depois desse tempo todo ela só foi perceber agora que o Ouvido aqui tem tudo o que ela mais gosta? Cérebro e ouvidos para escutá-la! Tanto suas doces quanto suas terríveis palavras..."

Encontravam-se à sós, Ouvido e Orelha, ela ao pé dele, ambos sentados à mesa, na calçada, a 50 centímetros de distância. Ouvido não sabia que Orelha tinha mudado sua maneira de ouvi-lo a partir do momento em que viu Ouvido se sentir feliz com uma coisa simples.

[Orelha] - Ouvido, você viu as estrelas no céu hoje?
[Ouvido] - Olhei-as quando você me emprestou o bastão cotonete. Lindas! Elas me deixam feliz, não sei porquê.
[Orelha] - Porque elas te...
[Ouvido] - ...me ligam diretamente ao coração de quem eu amo.
[Orelha] - É exatamente isso que eu sinto! Puxa, faz tanto tempo...

E os dois sorriram, de orelha a orelha, e deixaram um cometa rastrear o começo de suas histórias.

Segunda-feira, Maio 26, 2008

a primeira vista
o primeiro sorriso
a primeira conversa
o primeiro livro
a primeira música
o primeiro filme
a primeira dança
o primeiro passo
a primeira confissão
o primeiro beijo...

não nessa ordem, nem em espaço de tempo que se possa contar. amor-amor, como o perfume, o aroma, está na memória do dia-a-dia, a cada dia, maior-maior. [:o)]

***

Há tempos não escrevo textos sérios, revoltados, despeitados, irônicos. Minha quase-poesia está com os dois pés no pueril. Acho que essa mudada de tom está boa pra mostrar que é possível ser mais leve depois de ter carregado alguns pesos. E que tudo só fortaleceu um músculo do corpo, o coração.

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Trocadilhando [ou os quatro elementos]

[Quem disse que vai acabar?]

água da chuva pra regar
água do mar pra navegar
água do olho pra descarregar
água do rio pra bebericar
água do amor pra criar, criar...

[E a gente respira isso todos os dias...]

ar, ar, ar...
está em todos os mais importantes verbos da primeira conjugação: amar, respirar, brincar, trabalhar, regar, plantar, cuidar, amar, amar, amar...

["Por mais distante, o errante navegante..."]

terra:
põe os pés nela
gaia criadora
e acarinha

[Transforma e transcende]

fogo, fogueira, fogão:
no tempo, no espaço, nos astros
primeira luz, guia, elemento astrolábio
continue regendo, transformando e transcendendo

Quinta-feira, Março 27, 2008

Os bichos

A gatinha Nina

Nina seria seu nome. Nina chega perto e vira de barriga pro céu. Ela quer carinho. Nina deita do meu lado e me dá beijinhos com sua língua áspera. Nina se chama Nina de tão pequenina que é. Que vontade de ninar Nina! [mas ela cospe bola de pêlos...]

O gatinho Tomás

Podem dar bola de lã, bola de papel alumínio, bola de meia, que Tomás nem dá bola. Tomás quer correr sem rumo, pular no ombro e cheirar o pescoço de sua dona. Menino-gato, Tomás quer mais é paz. [Tomás tem uma pinta na ponta do nariz...]

O cachorro Bob

Sem lenço e sem documento, ele apareceu. Seu primeiro nome ninguém sabia, mas conquistou todos com sua pinta de sangue bom. Carinho pra dar era o que não faltava! Até que, em um belo-dia-feijuca-feliz, Negão arranjou uma família e foi batizado mais uma vez. Bob é seu nome; Marley, sobrenome. [Bob tem um pêlo que faz inveja aos maiores adeptos do rastafári...]

O cachorro Lênin

Com nome e figura imponentes, de botar medo até em grandes russos, Lênin mostra a alma no primeiro olhar. É doce, desajeitado [seu corpo é muito grande pra sua meninice toda] e bom. Ele olha pra você e te chama pra brincar. Mas se você faz que num viu, que não tá nem aí, ele insiste. Porque ele gosta da brincadeira e quer dividi-la com você. Então, marotamente, chega perto, dá uma lambidinha na sua mão e sai correndo. [Lênin é branco como a neve, grande como o seu coração...]

O saber do amor

Em um olhar ver a verdade no que tem por dentro.

Ser amado pelo que é, por existir no mundo do jeito que for.

[nunca fui tão feliz. e é fácil.]

Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008

E a página virou sal.

Pequenos grãos disformes em movimento de cascata caíam dos olhos da menina. Menina que gritava como nunca se ouviu. Era a sua história que se desfazia, à medida que as palavras eram jogadas ao vento. Preces, confissões, pessoas, lugares, os sentidos. Os sentidos – tudo se misturava com o ar.

Desapareceu para o desconhecido.

E o novo se fez com o sol, a água, o ar, o chão. O sol trouxe a luz. A água, os sentimentos. O ar, a memória. O chão, o apoio. E a menina vivia o novo tranqüila. Conduzia os sentidos em direção à essência, ao que é. Pessoas, confissões, lugares têm sentido: são. Tudo o que existe é um.

Expandiu em espiral.

Sábado, Janeiro 26, 2008

Desabando as estrututras

Recebi esse poema por e-mail e o li hoje. Nada é por acaso, nem o nome do poeta.
passeio no bosque
o canivete na mão não deixa marcas
no tronco da goiabeira
cicatrizes não se transferem
[cacaso]
Hoje tive uma conversa longa que nada mais foi do que uma repetição de conversas anteriores. Decidi, minutos após o término da dita, pôr em prática minha resolução de ano novo: chega de churumelas, de pegar problemas dos outros, de querer abraçar o mundo, de querer que todo mundo goste de mim.
Tudo o que é muito rígido um dia tem que se dobrar. Demorou um tempão pra eu deixar de querer passar no concurso de santa e, de verdade, só depois dessa desistência é que comecei a aproveitar mais a vida, ver meus erros, errar bastante e acertar mais.
Foi por isso que escolhi: da minha vida só faz parte gente boa, bem-humorada, inteligente, interessante, sincera, leal, amiga pra todas as horas; gente imperfeita que se assuma como tal e com quem eu possa aprender, trocar, compartilhar. [também aceito que faça parte dela algumas poucas pessoas que o universo escolheu por mim e que eu tenho que engolir, rs.]
Quero manter o movimento e melhorar sempre. Estou muito feliz, vivendo tranqüila, cercada de uma energia inédita pra mim. Num gostou do que eu fiz, falei, espirrei, respirei? Sou totalmente aberta ao crescimento pela verdade! Num gosta de mim? Assuma! Não é porque o universo nos colocou no mesmo lugar que você é obrigada a me achar bacanuda. Sério mesmo. Só chega de transferência de dor, de projeção baixo-astral.
Ponto final. [em aberto[

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Retrospectiva

Desencontros marcados seguidos por peças que vão se encaixando no quebra-cabeça da vida.

Vida que me traz o que quer, prega peças, quebro a cabeça, reconstituo-a. Até que aceito o que veio até mim e fica tudo bem. Então, começa tudo de novo. Chega gente nova, vai gente que não cabe mais. Tudo traz aprendizado. E aquele negócio de abrir mão do que não se tem, do desapego do que não existe. Abrir os olhos pra tudo o que está dentro, reconhecer e manter ou melhorar. Com a ajuda do etéreo, dos incensos, das músicas, dos amigos, dos inimigos, dos pêndulos e sins e nãos, mais um ano que começa. E vêm mais novidades, novelas e novelos pra desenrolar.

***

Alguém tão parecido com você. Mesmo. Oposto no signo e parecido por dentro. E eu que me achava única em tanta coisa! [rsrsrs]

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Templo

Muitos dias passei lendo e colecionando histórias sentada no banco do lado da fonte colorida, perto da biblioteca e sob a luz do sol que faz arco-íris da água. O que surpreende é o mar de gente que passa pela entrada e muda de feição. Sabe aquela história que nossa alma tem cara própria? Então, é a alma que se liberta quando entra nesse lugar. Abre-se um mundo novo que ocupa os cinco sentidos. O cheiro da tinta e da poeira são minha madeleine e trazem todo tipo de lembrança. [madeleines não funcionam comigo. não ficam boas com café... acho que madeleines foram boas só pra termos Proust, rs] O olho se enche em todas as direções. A proibição do toque faz você sentir o proibido. Todo mundo falando baixinho, feito ladainha em respeito às mãos sagradas. E quando tem música, fica ainda melhor. O gosto de crescer os olhos, os ouvidos e a alma. Com todas as religiões, etnias, crenças e livres expressões, meu templo ecumênico, a Pinacoteca.

Domingo, Dezembro 16, 2007

Sonhos, realidades, arquipélagos

O momento: tornar o sonho em realidade.
Ver, no sonho, as imagens: o que elas revelam e o que elas escondem.
Ver, na realidade, as pessoas: o que elas são e o que elas sentem.
A procura da ilha desconhecida: a chance de nos conhecermos e de nos redimirmos.

Vistos de fora

Procura no além-mar tesouros guardados na infância.
Pensa na vida que viveu e quer retomar a vida.
[Sempre é tempo eterno]

Vê na terra estrangeira a possibilidade de encontrar os verdadeiros tesouros.
Na figura paterna, o elo que se forma em buscas comuns.
[Ser é ser eterno]

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Paperwall

No marco zero de toda cidade com mais de um milhão de habitantes tem um Paperwall.
Ele é feito do papel e seus parceiros. Papel de carta, papel de rascunho, papel de entrega, nota fiscal, papel de embrulhar carne, pão, peixe, papel jornal, papel-papel. Seus parceiros são o sangue, o verbo e a cola que mantém a estrutura firme.
Segundo as estatísticas, ele recebe mais de mil e quinhentas visitas por dia. As pessoas vão lá para reciclar seus sentimentos. Despejam sobre ele desamores, dores, rancores. Raramente despejam felicidade. Vão visitá-lo para obterem respostas e, quando isso não acontece, atiram pedras e choram nele. Algumas pedras conseguem transpassá-lo, tamanha a fúria do mundo. Apesar da vedação da cola, as lágrimas o incham e depois o encolhem, mudando sua estrutura.
Mas o Paperwall não se importa com as invasões na sua matéria. Até fica feliz, porque faz com que ele mude um pouco mais a cada dia. Os buracos são seus preferidos, pois faz com que as pessoas possam se ver e se reconhecer. Porque tanto a dor quanto o amor podem estar lá. Tudo se transforma. Quanto às lágrimas, ele diz que são necessárias. Está escrito em um dos jornais que o constitui, que lágrimas evitam a explosão interna de um ser humano – humano. Se você pensar bem, parece que tem um embasamento científico essa informação.
Hoje fui visitá-lo bem cedo. É impressionante o quanto de vida tem lá! Colei uma carta de amor do lado esquerdo e um desenho colorido do lado direito. Chorei um pouquinho, abri um buraquinho com uma agulha bem fininha e prometi voltar logo-logo pra contar as novidades.

Domingo, Setembro 16, 2007

Um laboratório de experiências. Os olhos abertos, os ouvidos atentos, o ritmo do ar dos pulmões que acompanha o coração. Pernas que dão o movimento. Interrogações interiores. O que surpreende por ser simples. Um milésimo de segundo atrás é passado. O futuro não existe senão no presente. Sair do cotidiano e do descuido do mundo. Sempre alerta e aberta. Pro bem e pro mal; por bem ou por mal. A dualidade, o absoluto, o além, o sorriso e o gesto. O natural e a natureza. O amor e o perdão, o eterno-perene.

Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Dos momentos. Dois momentos. Um momento, por favor.

Dos relacionamentos e das expectativas

a) Quando namorei um engenheiro, pensava que em uma de suas criações ele fosse pôr minhas iniciais em algum lugar do concreto fresco.
b) Quando namorei um poeta, queria reconhecer em suas poesias alguma coisa que tínhamos vivido.
c) Quando gostei de um artista plástico, queria ver alguma coisa de mim em suas criações.

Do que aconteceu

a) O engenheiro em questão trabalhava em um banco de investimentos.
b) O poeta me fez poesia no começo, depois foi investir em outras musas.
c) O artista plástico não se manifestou em nenhum momento.

De mim

As palavras precaução e cautela, o alerta cuidado!, não existem no meu dicionário. Tenho aquela coisa de me jogar. E então, crio expectativas baseadas no que eu faria para o outro. Insisto em relações que fazem com que eu aja como um cachorro, correndo atrás do rabo. Sem resposta, sem sinal, sem sair do lugar. Tá aí o problema. Em mim. Coisa mais egocêntrica.

Do agora

Vou mesmo dar um tempinho. E começar a investir na visão além do alcance.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Sobre o amor

Li que Stendhal teorizou sobre o amor.

Ele disse que, para o amor nascer, três coisas são necessárias: admiração, esperança e uma dose de insegurança.

Concordo e simplifico. Para o amor nascer, a gente precisa permitir que ele nasça.
Agora, eu concordo e complico. Para permitir que ele nasça, a gente tem de se livrar de memórias e não comparar o que passou com o que passa. Ninguém é igual nem age da mesma maneira. Pagar pelo o que outras pessoas fizeram pra alguém é duro. Endurece. Dá vontade de xingar o mundo. Ter de abrir mão de quem você gosta por causa disso, pior ainda.
Não acabou nem a admiração, nem a dose de insegurança. A esperança também não, mas muito pouco depende dela. E de mim. Espero que esse nó na garganta que teima em aparecer e me faz chover me deixe melhor. Espero ouvir sua voz de novo, nova.

Peixe fora d'água

Confesso, sinto uma inveja futebolística: os jogadores de futebol têm o tempo certo pra jogar a toalha. Tá lá, determinado: 45 do primeiro tempo, 45 do segundo. É matemático, lógico, racional, como tem que ser um jogo.

Não nasci com o talento de chutar uma bola. Já caí uma vez tentando e minha segunda tentativa resultou em uma unha roxa. Daí me explicaram que se chuta a bola com a parte de dentro do pé, ou com a de fora. Tarde demais, minha unha já tinha até caído. Então, cada vez que via um jogo, me dava uma dor no pé que eu decidi ignorar a existência do futebol.

E estava aí meu erro.
Futebol é muito mais que um jogo, é um treino na arte do jogar agressivo, estratégico, racional, macho. Tudo bem prático, é ou não é, 8 ou 80. As regras não têm exceção dentro do tempo do jogo. Cartão amarelo [atenção!], cartão vermelho [expulsão!]. Num gostou, chuta ou empurra, grita e solta seu estoque de xingamentos. A hora predita de se jogar a toalha está lá, varia no máximo 5 minutos. E nos 45 do segundo tempo, na hora de se jogar a toalha, de tirar o time de campo, você vai ter o resultado, bom ou não para seu time. Resultado inflexível e binário da paixão nacional.
Esse era o aprendizado que eu teria adquirido. Mas eu preferi participar da natação, deu no que deu!

Sábado, Agosto 18, 2007

Melhor que raio-x, só muitos olhos!

Gosto de ser encontrada por livros. Sem querer esse aí me encontrou e quem me deu viu que eu gostei tanto [mas tanto, mais ainda do que ele], que acabei o ganhando um presentão!

São poemas sobre alguns personagens peculiares de Tim Burton, com os quais me identifico bastante [:o)]! O livro se chama O triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias e foi publicado pela Girafinha.


A menina de muitos olhos


Dia desses no parque
Vi uma moça de raro encanto.
Tinha tantos, tantos olhos
Que, confesso, fiquei meio tonto.

A sua beleza não era pouca
(Aliás, que tremenda gatinha!)
Quando notei que tinha boca,
Engatamos uma conversinha.

Falamos sobre ecologia,
Sobre suas aulas de poesia,
Sobre os óculos que usaria
Se um dia tivesse miopia.

Mas, de tudo, o que eu mais adoro
É seu olhar diversificado.
Se entretanto ela cai no choro,
Não tem quem não fique molhado.

Quinta-feira, Agosto 02, 2007

Órion


Primeiro a tinha a três palmos do nariz. Capturava suas luzes nas retinas e transformava em histórias.

Depois preferi a distância e ela ficou registrada na memória, nas fotos, nos cartazes.

Agora, depois de olhar por tempos reproduções auto-colantes, a trago pra perto vez ou outra e, então, permito-me lembrar de onde vim.

Quarta-feira, Julho 25, 2007

Um café e uma pista, por favor.

"– Desde quando você gosta de coffee?
– Desde que te conheci!
– Ai, bonito! Então vou cantar uma música da Gloria Gaynor!"

Seja lá o que café tenha a ver com Gloria Gaynor, começou a cantoria na mesa ao lado. Eu, tentando ler. O escritor, à minha frente, tentando escrever: duas canetas, um caderno e um maço de cigarros.

Impossível não prestar atenção nos rapazes, muita alegria e agudos fenomenais! Ele também está prestando atenção nos rapazes cantantes. Será que os transformará nos próximos personagens principais de um best-seller? Um deles tem toda a pinta de serial killer, dândi feito o protagonista de Frenesi. O outro pode ser a primeira vítima da série, porque lhe falta um quê de personalidade.

E o escritor não pára de escrever e está tentando ver o que estou lendo. Já sei! Vou dizer o que estou lendo, se ele deixar eu ler o que está escrevendo. Porque ele tem um sorriso pregado no rosto enquanto escreve. Troca justa. Vou lá! Chegou meu café. Minha curiosidade vai ter de esperar o café acabar.

Tarde demais, faltam 5 para as 9. A sessão de Uma verdade inconveniente vai começar. Ele fecha o caderno, levanta, pega as duas canetas, as põe no bolso junto ao maço de cigarro, me dirige um sorriso e se dirige à sala, acompanhado da alegria dos dois que agora não cantam, falam sobre La Dolce Vita:

"–Ai, não existem mais mulheres como Anita Ekberg! Que busto! [busto? educados... :o)]
–Nem homens como Marcello Mastroianni! Que...
[juntos] – Ah-rá-rá-rá-rá-rá-rá!"

[[O que será que eles sabem sobre o Marcello Mastroianni? :o)]]

Sexta-feira, Julho 13, 2007

Equilibrando sapos

Engolir sapos-boi é a nova modalidade da arte circense que desenvolvi.
Muito divertida, aliás. Tem vezes que incomoda um pouquinho.
O mais impressionante – e é aí que está a arte – é transformar o sapo-boi em girino.
O truque, e eu posso ensiná-lo a você [é bem complexo], o truque é: engolir o sapo, analisar textura, cor, consistência da carne, lubrificação da pele, agudos do coaxar. Então você respira fundo, toma um gole de água e pum! Sai o girininho, a resposta cautelosa ao mundo, acompanhado do que dizem ser a maior virtude humana: a paciência do início de tudo.
***
O treinamento
Enquanto evolui nessa modalidade circense, vai passar pelas seguintes fases.
  • Primeiro você se indigna com os deuses, com o mundo e com tudo o que te acontece. Falta de paciência total.
  • Depois, visto que tudo está legal para a maior parte das pessoas e só você sente indignação, preocupação, a indignação fica escondida e você começa a engolir os sapos-boi, pois põe-se no lugar do outro, entende, blá, blá, blá.
  • Em certo momento você se cansa novamente e diz: "Nossa, como pude ter tanta paciência!", seguido por "Vão tomar suco de caju e vivam suas vidas!".


[Advirto: os pronunciamentos dessas fases são, todos, seguidos de profunda dor de garganta]

  • Por último, você se percebe em um estado de letargia. "Ah! legal!", "Ah, que bom!", "Puxa, que coisa para se dizer, mas vamos deixar o girino viver!", são as frases mais recorrentes que saem da sua boca. Você pode achar isso preocupante, mas asseguro que os resultados são reconfortantes. A dor de garganta ameniza, devido à diferença de tamanho entre sapos-boi, sapos, pererecas e girinos.

Não que eu tenha comprovado muita coisa, pelo fato de o processo todo ser demorado, mas tenho de acreditar que é assim que as coisas fluem. "É assim que as coisas fluem, é assim que as coisas fluem, é assim que as coisas fluem..." [meu estágio atual, hehehe!]

Segunda-feira, Junho 25, 2007

Há alguns dias sem vontade de falar, sem ter o que dizer, amante do silêncio.

Arrumo a casa, jogo fora 5 sacolas cheias de papel. Entre os papéis poemas, cartas, desenhos, rabiscos de letras, notícias velhas.
Resolvidas as poucas pendências, fica a abertura. É tanta liberdade e não sei o que fazer com ela. Não quero perder tempo, mas tenho de saber respeitá-lo.

O silêncio, então, me pede pra dormir. Fecho os olhos e, com a cabeça doendo, as imagens começam a aparecer em vermelho e preto:

# Vista da cidade à noite com as luzes acesas, tudo virando até ficar de ponta cabeça.
# Disco voador que emana luz vermelha, homem alado que se transforma em luz , sobe e desce transformado em raio.
# Milhares de mãos pretas com unhas vermelhas que tentam alcançar alguma coisa [sabe-se lá o quê...].

Acordo sem conseguir abrir os olhos, com dor de cabeça e a cabeça a mil. Ganho um carinho nos cabelos, um beijo, um sorriso e tento retribuir com um sorriso tranqüilo. Mas não quero falar, não quero acordar, durmo de novo. Desta vez as imagens vêm coloridas:

# Casa de tijolos pintada de branco com grandes janelas de madeira. Entro na casa e ela se divide em partes: janela-porta-parede-telhado-chão.
# Vou direto à janela e, em cada vidro, aciono botões que abrem universos ilustrados. A família, os amigos, os amores, as pessoas que passaram rápido na minha vida, quem eu queria ter conhecido e os desconhecidos.
# Na porta os sentidos, na maçaneta a memória, na fechadura o amor.
# Nas paredes cenas do cotidiano, de anos, que não devem ser esquecidas.
# No telhado um galo português indicando as direções e os ventos. Sento ao lado dele e olho para o chão. Tudo é translúcido e no chão só vejo a base: a terra cor de tijolo.

Abro os olhos mais uma vez, sem a dor na cabeça, preciso ir embora. Ganho mais carinho nos cabelos, mais beijos, mais um sorriso.
Já esse sorriso é meu e vem do sentir o que o silêncio quis me lembrar: o quanto é bom ser livre e gostar de alguém.